FONTES

Segundo Jenkins Keith, em “Repensando a História”, publicado em Londres, em 1891, “a história é um discurso mutável e problemático, a respeito de um aspecto do mundo: o passado...” O mesmo autor alerta para uma das maiores dificuldades do pesquisador, que é o “vestir a mente do passado para poder entendê-lo”.Esta tem sido nossa meta: mergulhar no passado para, através da simbologia expressa em documentos variados, entender como viveram nossos antepassados, construtores do mundo que nos recebeu.

Observemos, agora, o que escreveu a Professora Sheila de Castro Faria, especialista em história da família, no capítulo 10 de “Domínios da História”, de Ciro Flamarion Cardoso e Ronaldo Vainfas:

“Antes da década de 1950, os estudos sobre a família, como se entende hoje, praticamente não existiam, restringindo-se a análises genealógicas, quase sempre de grupos de elite, e baseados em fontes subjetivas. A vida familiar da grande massa da população não era contemplada. Foi com o desenvolvimento da demografia histórica, basicamente francesa, na década de 1950, com a atualização dos registros de batizado, casamento e óbito, e a criação de técnicas de reconstituição de famílias, que os primeiros resultados surgiram.

O avanço das pesquisas sobre o comportamento reprodutivo das famílias -tomando os registros paroquiais como fonte básica, determinando a idade ao casar, recasamentos, fertilidade, expectativa de vida, mortalidade, etc.- e sobre o modo de produção doméstica – em que as listas nominativas têm papel de destaque, estabelecendo em que medida a unidade doméstica pode ser considerada como só de consumo ou de produção – trouxe questionamentos importantes que se vinculavam a mudanças estruturais mais amplas.”

Não temos a pretensão de realizar um estudo profundo. Nosso objetivo é apenas ordenar as fontes de informação ainda existentes, de forma a proporcionar um ponto de apoio seguro para quantos se dediquem a analisar o desenvolvimento da região conhecida como Sertões do Leste. Resgatando informações e tornando-as de livre acesso ao público, acreditamos estar contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência crítica, mesmo nas camadas menos favorecidas, no que se refere à educação formal.

Dificuldades se nos apresentam em grande volume. Aos poucos, com muito esforço, temos conseguido superar muitas delas. Intransponíveis, até aqui, a intransigência de pessoas que, exercendo determinados cargos administrativos, tornaram-se guardiãs de documentos, cuja análise poderia auxiliar a melhor ordenação das fontes históricas de cada uma das cidades que temos visitado. Infelizmente, muitos destes “funcionários”, exatamente pela total ignorância de como se deu o processo de desenvolvimento da própria região onde nasceram, desmerecem o nosso trabalho e se esforçam para impedir que prossigamos. A todos eles deixamos, aqui, o nosso agradecimento. Saibam eles que, ao impedirem que pesquisemos antigos livros dos cartórios de registro civil, por exemplo, conseguiram apenas nos estimular a procurar outras fontes. E, nessa luta, temos encontrado pessoas que, apesar de contarem com uma educação formal muitas vezes inferior à dos ditos “funcionários”, conseguiram ultrapassá-los no que respeita à percepção dos fatos que fazem a nossa história.

Queremos registrar, também, o nosso apelo aos superiores hierárquicos destes “funcionários”. Nem sempre nós os procuramos diretamente porque temos a consciência de que não devemos interferir em suas atividades. Mas, pedimos que pensem um pouco no absurdo que representa esta atitude descabida de impedir que pesquisadores tenham acesso aos documentos. São eles, os livros, que muitos funcionários relapsos permitem que sejam devorados por insetos e falta de higiene, o ponto de partida para que transformemos dados em informações esclarecedoras do processo histórico.

 

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