Há algum tempo, pesquisando no Arquivo Público Mineiro e no Arquivo Nacional, tivemos oportunidade de conhecer o Mapa da Província de Minas Gerais, de 1855, desenhado por Friedrich Wagner.

 

 

Os sertões do Leste no mapa de 1855

Parte do Mapa de 1855, de Friedrich Wagner

 

 

Anterior a esta Carta só se tem notícia do "Mapa da Capitania de Minas Geraes, com a deviza de suas comarcas", concluído em 1778, trabalho de José Joaquim da Rocha.

Parte do mapa de 1778 relativo aos Sertões do Leste

Parte do Mapa de 1778, de José Joaquim da Rocha

 

 

Analisando os Relatórios da Presidência da Província do período em que a Carta de 1855 estava sendo composta, encontramos diversas referências à utilização de Cartas parciais então existentes.

No que respeita à região de Leopoldina, o mapa desenhado por Friedrich Wagner entre 1836 e 1855 incorporou, provavelmente, os levantamentos de João José da Silva Theodoro para as Cartas do Presídio, de São João Nepomuceno e do Pomba.

 

 

Com as publicações do Centro de Estudos Históricos e Culturais da Fundação João Pinheiro - Coleção Mineiriana, pudemos organizar melhor as informações colhidas e montar este artigo.

Utilizamos principalmente dois títulos daquela coleção: Geografia Histórica da Capitania de Minas Gerais e a Província Brasileira de Minas Gerais. A segunda, publicada em 1998, traz o artigo de Johann Jakob von Tschudi de 1862 que acompanhou o Mapa de 1855, também incluído neste volume da Coleção Mineiriana.

 

Parte do Mapa de José Joaquim da Rocha - 1778

 

Na época da viagem de Tschudi pela terra mineira, a Província estava dividida em 18 comarcas, das quais nos interessam duas: a do Paraibuna e a do Muriaé. A primeira, contando cerca de 58.500 habitantes nos seguintes lugares:

- Barbacena, fundada no século dezoito, era então composta pela sede de mesmo nome e pelas freguesias de Santa Rita de Ibitipoca e de Nossa Senhora da Conceição de Ibitipoca. Dentre os habitantes de Santa Rita e de Conceição saíram os principais povoadores do Feijão Crú.

- Rio Preto, na fronteira com o Rio de Janeiro, com seus 7 mil habitantes distribuídos entre a Vila de Nossa Senhora dos Passos do Rio Preto e a Freguesia de São José do Rio Preto. Destes povoados à margem do Rio Preto procedem antigos moradores do Feijão Crú.

- Paraibuna, a atual cidade de Juiz de Fora, bem como suas freguesias de Simão Pereira e Engenho do Mato, representam a origem de outros habitantes do Feijão Crú nascidos entre os cerca de 13 mil habitantes que residiam na Comarca do Paraibuna.

- O município do Pomba e a Freguesia de Mercês do Pomba foram berço dos demais ocupantes do território de Leopoldina no século dezenove.

 

 

A segunda comarca que interessa aos nossos estudos é a que levava o nome de seu mais importante rio: o Muriaé. Com 88 mil habitantes distribuídos em 4 municípios, não mereceu de Tschudi as referências adequadas provavelmente por falta de conhecimento de seus informantes.

 

 

Em nota de rodapé da edição de 1998, sob número 128, na página 171, registra Roberto Borges Martins:

"Aparentemente Tschudi não teve informação adequada e não percebeu a extraordinária expansão do café (e do povoamento)  que ocorria na Zona da Mata, exatamente na época de sua visita e de seus escritos sobre Minas. ... Leopoldina é um exemplo dessa desinformação do autor..."

Acreditamos que a desinformação encontre respaldo exatamente no fato do Mapa ter se baseado nos levantamentos de João José da Silva Theodoro, realizados em data anterior à "extraordinária expansão do povoamento" citada por Roberto Borges Martins.

De todo modo queremos ressaltar que em 1856, por ocasião da aplicação da chamada Lei de Terras (Lei nr.601 de 18.03.1850), o café ainda não aparecia como principal produto de nossa economia. Entre os proprietários de terras da região somente 15% declararam possuir plantações de café. Cerca de 65% mencionaram "planta de milho" e os demais não indicaram o produto de suas roças.

A Comarca do Rio Muriaé era composto pelos municípios de Leopoldina, Mar de Espanha, Ubá e Muriaé. O primeiro, tido por maior com seus 23 mil habitantes, abrangia a Vila Leopoldina e as Freguesias de São José do Paraíba e de Santa Rita do Meia Pataca, além dos Curatos de Conceição da Boa Vista, Nossa Senhora da Piedade, Bom Jesus do Rio Pardo e Madre de Deus do Angu.

O segundo município - Mar de Espanha - contava 19 mil habitantes localizados na Vila ou na Freguesia do Rio Novo e abrangia também os Curatos do Aventureiro e do Espírito Santo do Mar de Espanha.

Ubá aparece como terceiro município apesar da citação de seus 32 mil habitantes distribuídos entre a Vila e as Freguesias de São João Batista do Presídio, Santa Rita do Turvo e São Sebastião dos Aflitos.

O quarto município da Comarca é o que leva o nome do rio e que só seria elevado à categoria de "cidade" em 1865 como São Paulo do Muriaé. Os 14 mil habitantes encontravam-se na sede e nas Freguesias de Nossa Senhora do Glória e Nossa Senhora da Conceição dos Tombos.

Tschudi encerrou o artigo com o parágrafo a seguir transcrito, segundo tradução que encontramos nas obras citadas.

"Resta-me apenas acrescentar algumas palavras sobe o mapa anexo. Ele é o resultado de longos anos de trabalho do engenheiro civil Sr. Heinrich Wilhelm Ferdinand Halfeld, de Juiz de Fora, e do geógrafo da província de Minas Gerais, Sr. Friedrich Wagner, que faleceu no ano passado em sua residência em Ouro Preto. Embora não satisfaça às exigências que se fazem a uma carta geográfica precisa, é, no entanto, a melhor disponível sobre a província de Minas Gerais, e até mesmo a melhor sobre qualquer das províncias do Império. O auxílio pecuniário que foi colocado à disposição dos engenheiros por parte do governo provincial foi insuficiente para cobrir as despesas de medição do território, que tem mais de 16 mil milhas quadradas, e que apresenta tantas dificuldades topográficas. Ainda assim, esse mapa será de grande importância e valia para a futura elaboração de uma carta apoiada em medições trigonométricas, pela qual, porém, teremos certamente de esperar ainda durante muitas décadas."

 

 

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